Só há uma certeza: o mundo vai crescer menos em 2012 e as incertezas econômicas que provocaram turbulências nos principais mercados financeiros durante 2011 vão se arrastar por este e pelos próximos anos e continuar causando estragos. Tudo porque a recessão ou baixo crescimento que afeta as maiores economias mundiais – Europa e Estados Unidos – além da grave crise política interna que enfrentam, termina por afetar o comércio e os investimentos globais.
A atual crise econômica internacional, iniciada em 2008 nos Estados Unidos, voltou seu foco para a Europa, que vive seu pior momento nos últimos 66 anos, inclusive com ameaça de fim da moeda única, o euro.
Segundo a chanceler alemã Angela Merkel, a crise da dívida na Zona do Euro no continente “é a mais dura desde a Segunda Guerra Mundial”. Depois de passar por Portugal, Espanha, Irlanda, Grécia e Itália, a desconfiança dos mercados chega à França, mas nem mesmo a poderosa Alemanha, o mais rico país da Europa, está imune a esse contágio.
Há suspeita generalizada nos mercados financeiros de que os governos não estão levando o problema tão a sério, não têm um plano, nem sabem o que fazer, ou mesmo que não existe dinheiro suficiente. Para o professor Titular do departamento de Ciência da Gestão da Escola de Altos Estudos Comerciais da Universidade de Montreal (HEC-Montreal), Omar Aktouf, o fim do euro é possível porque há muitos anos os especuladores das maiores bolsas (Wall Street, Londres etc.) estão insatisfeitos. “É muito mais fácil fazer muito dinheiro especulando com moedas isoladas que com uma única de propriedade de muitos países”, considera, ressaltando que os principais mercados financeiros fazem apostas contra o valor das dívidas de paises como Grécia, Espanha e agora França.
No entendimento do estudioso, depois de salvar o sistema financeiro que fabricou a crise de 2008, os especuladores das bolsas e bancos com muitos bilhões de dólares e euros, os governos cometem o mesmo erro ao aceitar o dinheiro e a receita do Fundo Monetário Internacional (FMI).
”Com isso, vão reembolsar, no fim do processo, bancos privados por perdas causadas com a especulação contra as dívidas de vários países”.
Aktouf pondera que alguns não querem sair da concepção neoliberal-financeira da economia mundial - que para ele é a fonte da crise de 2008. Lembra que os “salvadores” designados para o Banco Europeu e para primeiros-ministros da Itália e da Grécia (Mario Draghi, Mario Monti e Lucas Papademos) não são somente neoliberais, mas também oriundos do banco Goldman Sachs, aquele que quebrou há três anos, marcando a fase sistêmica da crise internacional.
O primeiro era vice-presidente do banco norte-americano para a Europa. O segundo, assessor internacional. O último, governador do banco central grego que administrava a dívida da Grécia. Ele teria participado da operação de maquiagem das contas do Sachs. “Estão brincando de mudar as coisas no sistema financeiro, quando não se muda nada”, reforça Aktouf.
Para o diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcos Cintra, a crise revela fragilidades institucionais e ausência de mecanismos de enfrentamento dos problemas.
Acrescenta que é preciso compreender que a construção da união monetária e econômica da Europa está inserida no amplo contexto que envolve diferentes dimensões. Primeiro, a política: desde o fim da Segunda Guerra Mundial, procurou-se manter a Alemanha integrada na região europeia, a fim de garantir que “nunca mais haverá guerra”; “nunca mais haverá campos de concentração” e “nunca mais a Alemanha será deixada sozinha”.
Segundo, a dimensão monetária: a construção da moeda única - o euro - pensada como alternativa ao “dólar flexível” e à instabilidade das taxas de câmbio, após 1973.
Mas a criação do euro, como projeto defensivo ao dólar, veio acompanhado por problemas institucionais, regulatórios e de supervisão, sobretudo, dos sistemas financeiros. Eles se mostraram em 2008. Entre eles, bolhas imobiliárias (Espanha, Irlanda e Dinamarca); exposição aos ativos tóxicos dos Estados Unidos (Alemanha e Reino Unido); exposição ao risco pelos empréstimos à população de países do Leste Europeu (Áustria, Bélgica, Finlândia, Holanda e Suécia); falta de regulamentação dos bancos, com alguns se tornando transnacionais (Bélgica, Irlanda, Holanda, França e Reino Unido); e baixa competitividade (Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha e Reino Unido).
Sobre as dificuldades européias, Cintra diz que o mandato do Banco Central Europeu, por exemplo, é para gerir a política monetária (definir a taxa de juros básica) da área euro. Não há, portanto, um emprestador de última instância capaz de salvar um banco e/ou um país. “Fica muito difícil enfrentar a crise, porque é preciso construir novos consensos em torno da nova arquitetura financeira. E tudo deve ser votado por 17 parlamentos dos países que compõem a área do euro”.
Brasil
Para que o Brasil seja beneficiado com capital direto dos investidores europeus, que buscam fontes de aplicações e rentabilidade, Cintra defende redução da taxa de juros doméstica e preservação expectativas positivas para os investimentos privados e públicos, articulados em torno de amplo conjunto programado (pré-sal, Copa do Mundo 2014, Olimpíadas 2016) e do mercado de consumo de massa em expansão.
Nos próximos anos a economia mundial será impulsionada pelos países em desenvolvimento, mostra o Comunicado 119 – Estados Unidos, Europa e China no contexto da crise financeira internacional, divulgado em novembro pelo Ipea.
O técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e um dos autores da pesquisa, Lucas Ferraz Vasconcelos diz que a possibilidade de grave crise bancária europeia – e do contágio do sistema financeiro norte-americano por essa crise – é real. “O crescimento medíocre - e mesmo assim em um cenário propício ao surgimento de novas crises – parece ser a visão mais otimista para o continente neste momento”.
O professor do Departamento de Economia Aplicada da Universidade Federal do Ceará (UFC), Marcos Holanda, diz que, para se tornar mais atrativo, o Brasil precisa confirmar a disciplina fiscal: manter o superávit primário de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), segurar os gastos correntes e reduzir o endividamento para não dar margem à desconfiança do mercado financeiro que estará atento. “O momento é de oportunidade e o Brasil e o Ceará precisam melhorar a qualidade do gasto público, investindo não só na infraestrutura tradicional (estradas, energia, comunicações etc.), mas na institucional (saúde, educação etc.) para melhorar as condições de vida do trabalhador brasileiro e torná-lo mais competitivo”.
Ceará
O Ceará ainda não foi afetado de forma significativa pela crise porque as exportações alcançaram bons resultados, fechando o ano em torno de US$ 1,3 bilhão, conforme a coordenadora do Projeto de Internacionalização das Micro e Pequenas Empresas (MPE) do Sebrae Ceará, Marta Campelo. Mesmo com essa “performance” afirma que não se pode relaxar. “O fim da zona do euro apresenta uma probabilidade muito elevada de acontecer, já que a UE tem como alicerce as economias superavitárias da Alemanha e França, que apresentam situação macroeconômica mais favorável, porém, com limitada capacidade de atuação”.
Acrescenta que está se desenhando uma nova realidade econômica, que precisa ser observada e acompanhada com cautela. Na análise do diretor da Ceará Trade Brasil, Roberto Marinho, nesta nova ordem mundial que se forma, o Ceará poderá ter bom destaque em mercados novos, como o africano e o do Oriente Médio. “É visível o potencial de negócios nestas duas regiões, em detrimento da diminuição dos negócios com Estados Unidos e Europa”. O grande mercado interno e o desenvolvimento que o Brasil vivencia o credenciam para, num futuro próximo, ser visto como porto seguro para os investimentos de empresas estrangeiras. E, em alguns casos, a salvação de seus negócios.
O fato
A crise do mercado imobiliário dos Estados Unidos, em 2008, deixou apreensivos e mais cuidadosos os investidores do mundo inteiro. A Europa passou, então, a ser vista com reservas. A crise na Grécia foi o estopim para a etapa mais aguda do colapso europeu. Descobriu-se a maquiagem da real dimensão da dívida pública do País. Quando a situação foi revelada, o desastre foi tornado público. Os desacertos fiscais contaminaram a zona do euro. Os problemas se alastraram, em particular, por Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. O grupo, junto com a Grécia, passou a ser pejorativamente chamado de Piigs, alusão à palavra inglesa pig (porco).
não curti
A crise da União Europeia se arrasta há alguns anos, mas vem gradualmente se tornando mais severa
não curti
Entre julho e setembro, a economia brasileira parou de crescer. O consumo das famílias caiu, depois de sequência de alta permanente
curti
Brasil pode crescer mais em 2012 que em 2011. Taxa média trimestral pode ser de 1,2%. No ano que termina, ficou em torno de 0,5%
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