"Num campeonato marcado pelo equilíbrio e pela emoção, o Corinthians se sagrou campeão brasileiro"
A crise financeira mundial pode acabar fazendo um bem danado ao futebol. É bem verdade que, do ponto de vista antropológico, as arquibancadas podem se tornar uma válvula de escape ainda mais explosiva para os recalques, frustrações e revoltas de praxe. Afinal, em tempos de agruras existenciais e, principalmente, materiais, o ser humano possui uma atávica inclinação aos mais variados tipos de fanatismo – do esportivo ao religioso -, o que faz os meios se confundirem com os fins (e vice-versa), com resultados geralmente desastrosos.
A crise financeira mundial pode acabar fazendo um bem danado ao futebol. É bem verdade que, do ponto de vista antropológico, as arquibancadas podem se tornar uma válvula de escape ainda mais explosiva para os recalques, frustrações e revoltas de praxe. Afinal, em tempos de agruras existenciais e, principalmente, materiais, o ser humano possui uma atávica inclinação aos mais variados tipos de fanatismo – do esportivo ao religioso -, o que faz os meios se confundirem com os fins (e vice-versa), com resultados geralmente desastrosos.
Entretanto, do ponto de vista estritamente econômico, há algo virtuoso se desenhando em meio às mudanças nos fluxos financeiros globais e às dificuldades de caixa das grandes economias mundiais. Vem aí uma nova geopolítica do futebol, que impacta não apenas os orçamentos dos outrora inabaláveis clubes europeus, mas também a relação entre os torcedores, seus times de coração e as seleções nacionais.
Nos últimos trinta anos, a força da grana ergueu e destruiu coisas belas dentro das quatro linhas. “Esquadras” vitoriosas e geniais - do Milan de Van Basten ao Barcelona de Messi - só foram viabilizadas pelo poder econômico. Os campeonatos nacionais do Velho Continente – principalmente a chamada Big5, conjunto das cinco principais ligas europeias (Inglaterra, Itália, França, Alemanha e Espanha) - deram um enorme salto de prestígio e os times europeus viraram o eldorado dos grandes craques, com seus salários a cada ano mais extravagantes. Tudo se movendo através de uma balança comercial cuja moeda corrente eram os jogadores, essa nova commodity de exportação dos países periféricos. Em especial, da América do Sul e da África.
Em 1985, por exemplo, eram pouco mais de 130 jogadores brasileiros jogando no Exterior, número que pulou para quase 1,2 mil em 2008 – parte significativa migrando para a Europa. Nesse período, o salto na média salarial foi ainda maior. No começo dos anos 80, Falcão - um dos primeiros a conseguir faturar um bom dinheiro no exterior - saiu do Brasil para ganhar 900 mil dólares por um contrato de três anos na Roma. Em 2011, o meia-atacante Kaká, atualmente no Real Madri, recebe valor semelhante por apenas um mês de trabalho.
Essa corrida pelo ouro e o consequente fortalecimento dos clubes tiveram como efeito colateral o enfraquecimento das seleções europeias. A importação de jogadores causou um déficit no mercado formador desses países. Com a chegada de craques estrangeiros, o espaço reduzido para os jogadores locais acabou se traduzindo em seleções nacionais menos expressivas e de pior qualidade técnica. Natural, então, que, no coração dos torcedores, uma Champions League se tornasse mais relevante do que os torneios continentais de seleções e empatasse em prestígio com a Copa do Mundo.
Nos países exportadores, a saída em massa - e cada vez mais precoce - de jogadores também se refletiu nas seleções. Se o preparo físico e o repertório tático foram ampliados (mantra colonizado incansavelmente repetido por certos comentaristas da área), os selecionados tornaram-se alienígenas em suas próprias pátrias. Cada vez mais distantes, cada vez mais desconhecidos do torcedor, numa confusão de passaportes que embananou o amor que pulsava nas arquibancadas.
De meados dos anos 2000 pra cá, e com mais intensidade ao longo da rebordosa da crise de 2008, essa curva se inverteu. Em se tratando da Big5, o Brasil ainda é o maior exportador de jogadores. No entanto, os números vêm caindo ano a ano – ao passo em que aumenta a presença dos europeus em seus países de origem. A edição de 2011 do relatório Annual Review of the European Football Players’ Labour Market - preparado pelo Professional Football Players Observatory, que produz estudos relacionados ao mercado europeu – mostra que na temporada 2008/2009 eram 154 jogadores brasileiros, quantidade que caiu para 131 em 2009/2010 e, na temporada que terminou este ano, chegou a 123.
As dificuldades financeiras dos grandes clubes explicam esse cenário. Mas também vale considerar o fortalecimento da economia brasileira registrado ao longo do governo Lula, o que também fortaleceu os clubes brasileiros. A repatriação de Ronaldinho Gaúcho e o “fico” de Neymar são os eventos mais emblemáticos desse novo estado de coisas no futebol brasileiro. Na Europa, os clubes vão tentando se equilibrar sobre o abismo dos gigantescos déficits das economias nacionais enquanto as seleções voltam a ganhar relevância (não à toa, Itália e Espanha são as últimas campeãs mundiais). Por aqui, o prognóstico é justamente o inverso. Enquanto os clubes se fortalecem e alcançam um prestígio econômico poucas vezes visto na história do nosso futebol, a seleção teve uma recaída em seu complexo de vira-latas.
Destaque-se a participação da CBF nesse processo. Com sua política caça-níqueis e suas relações inefáveis com a Rede Globo, a instituição comandada pelo famigerado Ricardo Teixeira tem submetido o que outrora foi o motivo maior de orgulho da “pátria de chuteiras” a amistosos pífios e situações no mínimo constrangedoras. Às quais o brasileiro tem respondido com doses crescentes de indiferença e alienação. Vide os últimos amistosos da seleção em 2011, contra o Gabão e o Egito, respectivamente, e que mal passaram dos 13 pontos no Ibope – um vexame para os padrões globais.
"Em tempos de agruras, o ser humano possui atávica inclinação aos mais variados tipos de fanatismo"
"A repatriação de Ronaldinho Gaúcho e o fico” de Neymar são emblemáticos desse novo estado de coisas"
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