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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Correspondente internacional não vê Jogos no Rio como algo grandioso


rogério corrêa, fernando duarte, eraldo leite redação sportv (Foto: Leonardo Filipo/SporTV.com)
Rogério Corrêa, Fernando Duarte e Eraldo Leite no Redação SporTV (Foto: Leonardo Filipo/SporTV.com)



Por quase uma década, o jornalista Fernando Duarte foi correspondente do jornal “O Globo” em Londres. Cobriu duas Copas do Mundo e vem acompanhando a preparação da capital londrina para os Jogos Olímpicos deste ano. Fora do esporte, relatou para o diário carioca os atentados terroristas no Reino Unido em 2005 e mais recentemente a Primavera Árabe no Egito. Função que exige conhecimento de várias áreas do profissional.
- O jornalismo hoje em dia tem que ser cada vez mais polivalente. Nenhum setor é hermeticamente fechado. No esporte tem que entender de economia e até de política para chegar à conclusão de algumas coisas – disse Fernando Duarte.
Essa visão ampliada do esporte permite que ele trabalhe como consultor sobre futebol brasileiro na Inglaterra, colaborando com o jornal “Guardian” e a revista "World Soccer", além de participar de programas de televisão no Reino Unido.



No começo de 2012, Fernando Duarte esteve durante uma semana no Rio de Janeiro, quando participou do “Redação SporTV”. Depois do programa, conversou com o SporTV.com sobre a carreira, o livro “Futebol Exportação”, escrito em 2007 com Claudia Silva Jacobs, e comparou as preparações das próximas cidades olímpicas, Londres e Rio de Janeiro.



Quais fora as coberturas mais marcantes nesse período como correspondente?

- Você guarda na cabeça não só as coberturas, mas os sons e imagens. Ir a países como Omã, por exemplo. Gosto de ver coisas diferentes e de estar em ambientes diferentes. Cobri duas Copas do Mundo espetaculares. Na Alemanha, cobrindo a própria Alemanha, um país com uma história tão interessante. A África do Sul, pelo caráter histórico importantíssimo. A Revolução no Egito por ser uma nação tão importante historicamente e agora em termos geopolíticos para o mundo. Os atentados em Londres, os distúrbios na cidade, coisas que vão ficar na cabeça. É difícil escolher.


Claro que fazer entrevista coletiva de ministro nunca foi a coisa mais legal do mundo, mas pequenas histórias que podem render grandes assuntos. Vasculhando os arquivos históricos do Reino Unido, de brincadeira, descobri que durante a Segunda Guerra Mundial havia a suspeita que uma empresa estava ajudando os nazistas a preparar um atentado no Brasil. Não ganhei prêmio, nem nada. A empresa tinha sido vetada pelos Estados Unidos de fazer uma compra de material exclusivo. Era só uma suspeita, mas era interessantíssimo. Durante o atentado em Londres conversei com um socialista que disse que os autores foram terroristas de fundo de quintal. Todo mundo achando que fosse a Al Quaeda, e esse cara disse que era algo amador. No momento em que o terrorismo era tão difundido, qualquer um poderia fazer. Foi um furo mais ou menos mundial que eu dei, talvez o único.



Quais surpresas o seu livro, "Futebol Exportação" revelou?

- A gente achava que era uma coisa de ontem. Na verdade, desde o Filó, reserva da seleção da Itália campeã mundial em 1934, tem brasileiros atuando no exterior. Era uma antologia. Ao mesmo tempo mostrar que a presença brasileira estava muito mais presente no mundo do que se imaginava. Historicamente, a Inglaterra tem menos jogadores brasileiros do que o Vietnã e do que a Costa do Marfim. A ideia não era tentar reinventar a roda. O (jornalista) Fernando Calazans fala uma coisa interessante. A torcida perdeu o convívio com estes jogadores. Antigamente você esbarrava com o Zico. Hoje em dia não é assim.


O livro é de 2007. O que mudou no mercado de futebol desde então? Hoje está mais fácil segurar os jogadores no Brasil?
- Quando escrevemos sabíamos que a economia brasileira estava melhorando. Existe uma maior tendência de segurar o jogador hoje em dia. Você pode segurar mais, mas não pode evitar que ele vá embora. O que aconteceu é que o Brasil melhorou, e o nível dos clubes está melhorando. Mesmo com todos os desmandos, o campeonato está mais interessante. Mas ao mesmo tempo, a Europa está segurando muito. Os clubes brasileiros, que dependiam muito de exportação, por causa da crise econômica, viu não só o número de transferências diminuir, mas também o valor dos jogadores. Os clubes tiveram que se organizar um pouquinho. Acho que é uma mistura, não é assim: ”O Brasil vai voltar a importar jogadores”. Eu não tenho dúvidas que o Neymar vai embora. Os melhores vão embora. Eu não acho que o sexto melhor lateral do Brasil, por exemplo, vá embora rápido. Os dois melhores vão embora.


Falando em Olimpíada, como você avalia a cidade de Londres em relação ao Rio de Janeiro?

- Londres já tem uma estrutura pronta em relação à vida cotidiana. Depende muito menos do transporte egoísta, do carro, como o Rio de Janeiro. A questão também é na concentração. Eles tinham um terreno baldio com solo contaminado no leste da cidade e construíram tudo ali. A missão deles foi muito mais difícil em termos de logística para o Parque Olímpico. Mas ao mesmo tempo eles já tinham uma infraestrutura básica muito melhor do que a nossa. Então, acho um pouco injusto comparar. Mas pelos últimos relatórios que eu li do COI (Comitê Olímpico Internacional), o Rio está fazendo o seu dever de casa. Só que fazer o dever de casa vai afetar a população com as obras. O projeto do Rio é muito interessante pela determinação das quatro regiões e a infraestrutura do Pan é decente. Mas nunca entendi o projeto do Rio como algo grandioso. É algo para realizar as Olimpíadas pela primeira vez na América do Sul de maneira correta e digna. E também para dar um gás na cidade. É muito mais inspirada em Barcelona do que em Pequim.
Londres é um modelo muito mais funcional. É mais como fazer os Jogos descartáveis. Em Pequim não havia nenhuma responsabilidade. Oficialmente foi US$ 80 bilhões, mas se for mais a gente nunca vai saber. A gente tem que ficar muito preocupado quando alguma coisa no Brasil depende do poder público. Pelo o que eu andei vendo não há motivo para entrar em pânico. Até porque muita coisa, 75%, já está no lugar. Mas vamos conversar daqui a dois anos para ter uma ideia melhor.

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