O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, defendeu ontem que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tenha poderes para investigar juízes e apurar valores recebidos pelos magistrados. Na semana passada, duas liminares do Supremo Tribunal Federal (STF) suspenderam investigações da corregedoria do CNJ, abrindo uma crise interna no Poder.
De acordo com o presidente da OAB, a Constituição Federal atribuiu ao CNJ competência para exercer o controle administrativo e financeiro do Judiciário e o cumprimento dos deveres funcionais dos juízes. Para Cavalcante, o conselho pode iniciar investigações independentemente de as corregedorias dos tribunais locais terem ou não apurado as suspeitas de irregularidades.
“O CNJ não é mera instância recursal às decisões das corregedorias regionais de Justiça sendo clara a sua competência concorrente com a dos tribunais para apuração de infrações disciplinares”, disse. “A República é o regime das responsabilidades. Os excessos e desvios praticados deverão ser apurados respeitando o devido processo legal”, concluiu.
Repercussões
Ex-secretário de Reforma do Judiciário, Sérgio Renault estava no cargo quando foi aprovada a criação do órgão. “O CNJ surgiu para investigar juízes de forma autônoma”, diz. “A resistência à época foi grande, e agora ela renasce, talvez porque ele estivesse cumprindo o seu papel.”
O ex-presidente do STF Carlos Velloso não vê problemas nas liminares dos ministros. Ele diz que ambas estão em acordo com a lei e serão avaliadas pelo plenário do Supremo quando ele voltar do recesso. “Também não vejo prejuízo para as investigações, pois janeiro é um mês de férias nos tribunais superiores”, diz.
Dalmo Dallari, professor aposentado da Faculdade de Direito da USP, discorda. Em sua opinião, as decisões contrariam o dispositivo constitucional que trata das atribuições do CNJ. “É uma tentativa de esvaziar o conselho, mentalidade até corrente no Judiciário. Os juízes estavam acostumados com as corregedorias locais, que muitas vezes agiam de forma corporativa”, diz. (das agências)
E agora
ENTENDA A NOTÍCIA
O que a sociedade mostra-se interessada em saber, de fato, é se as autoridades envolvidas na crise têm noção da importância do que está em jogo. O Judiciário precisa encontrar uma forma de sair mais forte do episódio.
SERVIÇO
Conselho Nacional de Justiça
Órgão voltado à reformulação de quadros e meios no Judiciário.
Onde: Anexo I - STF, Praça dos Três Poderes, S/N - Brasília - Distrito Federal
Fones: (61) 2326-4607/2326-4608.
Outras informações: www.cnj.jus.br
Para entender
19 de dezembro
O ministro do STF, Marco Aurélio Mello, concede uma liminar (decisão provisória) que limita os poderes do CNJ para investigar e punir juízes suspeitos de irregularidades. No mesmo dia, outro ministro do STF, Ricardo Lewandowski, suspende a inspeção feita pelo órgão de controle do Judiciário na folha de pagamento do Tribunal de Justiça de São Paulo.
20 de dezembro
A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) divulgam que a suposta varredura determinada pelo CNJ atingiria a movimentação financeira de mais de 200 mil os servidores e magistrados do Judiciário.
22 de dezembro
A corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, nega que o CNJ tenha promovido uma “devassa” em informações sigilosas de juízes e acusou associações de magistrados de fazer “declarações incendiárias” para tentar abafar os debates sobre a atuação e os poderes de investigação do órgão de controle externo.
23 de dezembro
Associações de magistrados protocolam requerimento pedindo à Procuradoria Geral da República que apure se houve vazamento de dados e quebra de sigilo de juízes durante investigações do CNJ
24 de dezembro
O presidente do STF, ministro Cezar Peluso, nega pedido feito pela Advocacia Geral da União (AGU) para suspender os efeitos da decisão provisória que limitou a atuação do CNJ.
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